Popficação do Ibura: para quem e até quando?
- GruPop

- há 20 horas
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O Ibura, desde 1988 oficialmente desmembrado em duas áreas (COHAB e Ibura) mas ainda considerado pela maioria dos moradores como uma única região, visivelmente vem passando por um processo de popficação nos últimos anos. Sendo morador do bairro desde que nasci, há praticamente vinte e cinco anos, é notável uma mudança tanto estrutural quanto simbólica da comunidade. Parte dessas transformações, é válido afirmar, estão diretamente relacionadas ao aumento de aplicações de recursos no local por parte da prefeitura durante a sua atual gestão. Ora, abrigando a segunda maior população entre os bairros da capital, não é difícil imaginar as razões políticas-eleitorais para os investimentos de infraestrutura realizados pelo governo João Campos (PSB) no Ibura, especialmente após sua reeleição em 2024. Nesse sentido, a construção do Compaz Paulo Freire e a ampliação da Ladeira da COHAB talvez sejam as realizações mais representativas da aplicação desses recursos, para além das requalificações de diversas praças e encostas que compõem a paisagem da comunidade.
Dessa maneira, não é estranha a decisão dos artistas Pabllo Vittar e João Gomes de gravar o videoclipe da música “Vira Lata”, em 2024, no campo da UR-1 (região central do Ibura). Essa escolha é um evidente reflexo desse processo de midiatização massificada em que o bairro está inserido atualmente. Inclusive, à época da gravação, a encosta sob o campo havia acabado de receber uma pintura personalizada da prefeitura com a frase “Eu ❤️ Ibura”, ganhando destaque no videoclipe e dando uma maior visibilidade e autoestima à região. Além disso, ações como a do artista iburense Anderson Neif, que investiu em torno de cinquenta mil reais dentro do próprio bairro para a gravação do videoclipe da sua música “Tá Calor Lá Fora”, que já alcança quase duas milhões de visualizações no youtube, mostram a potência cultural e econômica que pode ser gerada através da produção artística dos moradores da comunidade.

Todavia, é preciso ressaltar como esse processo de popficação do Ibura também pode gerar consequências negativas para o bairro. Nessa perspectiva, já é perceptível para os moradores o início de um processo de gentrificação em certas áreas do bairro, consideradas mais “nobres”, com o aumento nos preços dos aluguéis e construções cada vez mais recorrentes de conjugados apertados a preços exorbitantes. Aliás, essa tendência imobiliária evidencia a diferença do investimento público entre a região do bairro que é administrada pela Prefeitura do Recife, considerada mais estruturada, e a região administrada pela Prefeitura de Jaboatão, historicamente mais negligenciada.
Ademais, o caso dos “Inferninhos” serve para elucidar como esse fenômeno de midiatização do Ibura produz tensões e conflitos internos no bairro. Denominados dessa maneira pelos próprios participantes em função da liberdade de vivências do evento, os inferninhos eram festas de rua, organizadas pelos donos dos carros de som (conhecidos como paredões), que aglomeravam uma quantidade considerável de pessoas (inclusive de outros bairros e municípios) a cada final de semana, geralmente tocando músicas de brega e brega funk em dois pontos específicos do bairro durante a noite até o amanhecer: a Quadra do Buraco da Gata, em Três Carneiros (cenário do videoclipe de Neif já citado anteriormente) e uma parte da Avenida Pernambuco no UR-1 (avenida principal da área, próxima ao campo do videoclipe de João Gomes e Pabllo Vittar).
Ora, por um lado, os moradores do entorno desses dois locais começaram a reclamar dos transtornos causados pelo som alto, aglomerações e trânsito comprometido, além de denúncias genéricas de uso de drogas ilícitas e presença de menores de idade. Por outro lado, os frequentadores e defensores das festas alegavam que as acusações dos moradores eram exageradas e que, na verdade, as festas faziam girar uma economia interna benéfica para o bairro, atraindo inclusive influencers e artistas de outros estados para os eventos. De toda forma, as autogestões dos inferninhos, que determinavam certas regras de conduta (como a proibição do uso de determinadas drogas ilícitas) sob o slogan de “seu comportamento é a sua segurança”, não foram capazes de construir um diálogo com o governo e este, por sua vez, também não se propôs a elaborar um projeto que fosse capaz de conciliar as duas posições.
Sendo assim, através da cooptação das pautas legítimas dos moradores por políticos conservadores oportunistas com retóricas moralistas e frequentes repressões policiais, os inferninhos foram estritamente proibidos de serem realizados, sem data nem perspectiva de retorno de nenhuma maneira. Ou seja, nesse caso, de nada serviu a visibilidade midiática do bairro para uma possível cobertura jornalística mais sofisticada sobre o tema e a abertura de diálogo com o Estado e setores diversos da sociedade civil para resolver a questão dos inferninhos de maneira equilibrada. Portanto, é necessário refletir, nesta época de plataformas virtuais e tempos tão efêmeros, até que ponto a popficação do Ibura, assim como de outros bairros periféricos da cidade, pode ser apenas um fenômeno passageiro e se, a longo prazo, os efeitos desse processo se provarão de fato benéficos e duradouros para a comunidade.
O texto é de Pedro Albuquerque, morador do Ibura e mestrando em Comunicação no Programa de Pós-graduação em Comunicação da UFPE, além de bolsista pela CAPES e integrante do Grupo de Pesquisa em Comunicação, Música e Cultura Pop (GRUPOP/UFPE).



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